sexta-feira, 9 de junho de 2017

PARTITURA ORNITOLÓGICA


Não sei quem rege a sinfonia dos pássaros, mas sei que o encanto de tantos que cantam ao mesmo tempo não são em vão, ao menos à minha busca eles servem de alento.




vista geral do painel, abaixo os elementos são mostrados individualmente.






SEMENTINHAS... BROTANDO...


 Nestes dias frios de desesperança algumas semente começaram a brotar, ainda falta muito para as desabrocharem as flores solares, mas ao menos esses brotos despontam como estrelas em meio a uma noite nublada.
 E mesmo que ao amanhecer o sol se envolva em um véu de nuvens e pela tarde a chuva e o vento levem as pétalas da roseira, as estrelas ainda vão tilintar suas esperanças, como uma debutante envergonhada, feliz, encabulada sim, mas ainda assim muito feliz...

 Em meio a cenas como essa renovo minhas esperanças, tremeluzentes e ainda semi-cobertas, tal qual as estrelas da noite invernal, mas um bom sinal foi resgatar um velho hábito que me era (e ainda é) muito querido, o de rabiscar e colorir pequenos pedaços de papel, aleatórios e livres, com os fragmentos de boas lembranças, como o capim alto na beira da estrada de terra, as flores que minha tia cultivava na varanda, o raro e belo beijo do beija-flor no fim de tarde, numa luz que fazia arder ainda mais o azul-lilas de suas asas.










sexta-feira, 26 de maio de 2017

COMUM, COMO EU VOCÊ E QUALQUER UM...

Atenção!   O texto abaixo contem ironia, linguagem simbólica e referencias históricas, não recomendado a pessoas sem capacidade de contextualização e interpretação textual, grato pela compreensão.

Comum, como pão na chapa e café preto, como bolacha Maria esquecida no armário.

 Acredito haver um grande trunfo próprio ao ser comum (comum enquanto comunal, semelhante, equivalente a muitos outros...), não sei se isso vale para todo mundo, até porque nem tudo tem o mesmo valor no mundo todo, o fato é que experimento há muito tempo esta recorrente impressão e agora, depois de muita reflexão, vejo esta característica como uma considerável potencia. O ser comum parece prescindir do peso atlântico de ser extraordinário, não há sobre ele muitas expectativas ou cobranças, logo poucas frustrações, alem disso goza de certa liberdade ao criar qualquer coisa que queira, sem a amarração de excessivos olhares e interesses externos, projetando ao seu redor o cenário ideal para usar o efeito surpresa contra pré-julgamentos e pré-conceitos, nesta estratégia desarma facilmente os mais raivosos dedos indicadores.

 O comum parece revestido de uma aura de equilíbrio, desta feita, por não aparentar ser de todo santo ou facínora permite que todos os demais com ele se identifiquem, ao menos um pouco, com alguma afeição discreta, sem ojeriza ou adoração. Parelho a tantos outros, em tantos sentidos, talvez não caiba ao comum uma retenção sob hierarquias rígidas, pois à medida que a coroa não se firma sobre sua cabeça tampouco os grilhões lhe prendem os pés. Levando em consideração que a nobreza é em si mesma uma distinção o comum não pode usa-la para subjugar outros indivíduos, do mesmo modo não permite que o subjuguem, afinal como assemelhado a tantos pelo mundo não há justificativa para sua inferioridade, em suma tanto a servidão quanto a nobreza sustentam-se sobre noções tortas de segregação e hierarquias supostamente incontestáveis,ambas exóticas aos comuns. É valida a ilustração, a fim de reforço, onde se vê  que rei sem coroa é cidadão sujeito à lei, onde senhor de escravos sem cativos é mero criminoso, as distinções que mascaram estes personagens subjazem a sutis convenções sociais, aceitas coletivamente, em geral, de maneira inconsciente e simplória.

 Ainda que pareça fácil e tediosa a vida do ser comum, quando revistada mais minuciosamente, se revela uma aventura diária, onde tanto luta quanto se esquiva, seja dos banais ou dos soberbos, mesmo saltando armadilhas deixa-se fluir pelo passeio, seguindo com palavras assertivas e sorrisos comedidos, sem se prender ou sair em disparada, sobe sem estafa a uma colina segura, avistando do alto os extremados que se engalfinham nos mangues e várzeas. Passada a batalha, o comum é quem socorre os feridos, consola os enlutados, de ambos os lados sem olhar patentes, insígnias ou penachos, sereno sob o manto do silencio vive a glória do herói anônimo, do construtor operativo ,que virtuoso em sua simplicidade, promove a paz sem jamais sujar-se na guerra ignominiosa.  

segunda-feira, 22 de maio de 2017

A ILHA REFÚGIO

Exilados nas águas incertas do cotidiano, finalmente, encontramos um refúgio, uma ilha, brotando firme sobre o mar dos extremos, ainda que desabitada é ao menos habitável, um lugar para descansar os olhos e os braços, que diferente das ilhas de Böklin não se chega a ela depois da morte, ela está dentro de nós, hoje e enquanto houver vida.


A ilha refúgio, Lápis-cera sobre tecido, 138cm X 62cm, 2017


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terça-feira, 28 de março de 2017

VOCÊ JÁ USOU A SUA BOCA HOJE?


Boca suja


Boca suja
Que fala e reclama, grita, apanha
Chora e sangra, mas não cala!

Boca suja
Que beija, chupa e lambe
O anel, os lábios e a glande

Boca suja
Que ébria ou sóbria, sonha sempre
Apesar dos falsos messias e suas cobras.

Boca suja
Que só a trégua já não satisfaz
Ferida por tanta guerra, quer é paz!

Boca suja
Que devagarzinho, quer erguer bela casa
Um ninho, para passarinho, sem asa.

Boca suja
Que tanto canta, quanto silencia
Emudecendo o barulhento em sua melodia.

Boca suja
Que trabalha!E muito rala na labuta
Útil ao deputado tanto quanto para a puta.

Boca suja
Que quando quer fica limpinha!
Como uma boca solene, distinta e de bem

Que um dia pode ser sua, noutro minha também.




domingo, 19 de fevereiro de 2017

REFLEXÃO EM ESCRITA SEMI-AUTOMÁTICA

 Alegre é a loucura irônica em meio a falta de sentido, em meio a dramas auto-impostos de solução já sabida, parecendo-me melhor dramatizar até a ficar grotesco do que aceitar aquela que me parece a única saída, bem pior que a morte, é erguer um monumento ao fracasso com minha separação. Mais honrado, talvez, seja esgotar tanto as esperanças quanto as alternativas, olhar de frente o temível e destruidor desconhecido, num primeiro encontro, que por mais doloroso que seja, espero que venha logo, enquanto os dias de agonia se derramam em um lamaçal de incertezas só consigo pensar que alívio do fim de ciclo seja a mais aprazível das certezas, quero pra logo esse marco simbólico, uma data pra lembrar, de quando esse sonho real e datado finalmente terminou, quero poder berrar!  Morreu! Acabou! Pior que qualquer perda é zumbido que a anuncia, pior que a bala é o estampido, naquele meio segundo que você espera pra ser atingido, ainda tenham lhe errado como alvo.
 Que meu existir se exploda, e exploda agora! Já! Estou exausto de existir nesse meio moribundo de ressuscitações intermináveis, esse meu bioma psico-sócio-existencial tem que morrer, o chão que eu piso é uma areia molhada e estéril, clamando por algum cadáver qualquer que lhe sirva de adubo. 
 O que eu mais quero saber é como fazer para que essa morte, benfazeja e inevitável, ocorra com menos dor e fausto possível, lágrimas e gritos não ajudarão ao corpo apodrecente adubar a nova vida, lamentos são inúteis e idiotas, quero só um pouco de raro silencio compreensivo, não de todo complacente é claro mas ao menos respeitoso, por um tempo breve. 
 Quero viver, se a assim a lógica abstrata da natureza quiser, por isso é imperativo deixar morrer, sem dó, que só serve como nota em musica, pra além disso é uma baita desnecissadade burra. 
Morrer e renascer, já!

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

BELEZA FRÁGIL






A beleza é frágil
Um estado instável
Que se esvai
Pelos olhos vãos
De quem não quer ver

Assim ela fenece
Para depois renascer
Não se sabe onde
Talvez numa bela vista
Frente a retinas menos vis